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02 de novembro de 2026

O desafio de crescer sem virar gargalo da própria operação

Você já sentiu que, quanto mais sua operação cresce, mais decisões dependem de você? Esse é um dos principais desafios de quem passa de franqueado a multifranqueado: deixar de resolver tudo pessoalmente para construir uma estrutura capaz de funcionar sem sua presença constante. No Radar Franquias de hoje, reunimos os aprendizados de dois multifranqueados que precisaram desenvolver lideranças, profissionalizar processos e repensar a própria atuação para continuar crescendo.

– PARA EXPANSÃO

Abrir novas unidades é uma das principais ambições de quem empreende no franchising. Mas existe um risco que nem sempre aparece no planejamento da expansão: o negócio crescer mais rápido do que a capacidade do franqueado de administrá-lo. Quando todas as decisões passam pelo proprietário, a abertura de novas lojas pode aumentar a complexidade da operação sem que a estrutura de gestão esteja preparada para acompanhá-la.

Como evitar que isso aconteça? A resposta passa por uma transformação no papel do próprio empreendedor: deixar de ser o dono que resolve tudo para se tornar alguém capaz de formar líderes, criar processos e construir uma organização que funcione sem depender de sua presença constante.

Esse foi o tema do painel “O desafio de crescer sem virar gargalo da própria operação”, realizado durante o Somos Multi 2026. A conversa foi conduzida por Fabiana Estrela, Chief Franchising Officer da Afferolab, com a participação de Daniela Zagury, fundadora do Grupo ZZAS e multifranqueada de Nutty Bavarian, Grand Cru e Geneal, com nove operações; e Rodrigo Waughan, presidente do Grupo Gérbera_+, que reúne 46 operações de diferentes marcas no Amazonas.

Quando a expansão exige dar um passo atrás

Daniela conhece bem os riscos de crescer sem uma estrutura preparada. Começou no franchising com disposição para trabalhar, perseverança e vontade de expandir. Mas, quando chegou a 11 unidades, percebeu que a complexidade do negócio havia ultrapassado sua capacidade de gestão.

A solução foi tomar uma decisão difícil: fechar algumas operações e reorganizar a empresa. A partir daí, passou a investir na profissionalização da estrutura, com equipe de gestão, processos, indicadores e disciplina.

“Toda vez que você expande sem o líder estar pronto, é preciso regressar para fazer correções.” — Daniela Zagury

A experiência mostra que abrir novas lojas não é, por si só, sinal de que o negócio está preparado para crescer. Sem lideranças capazes de assumir responsabilidades, o empreendedor pode acabar dedicando cada vez mais tempo a corrigir problemas que poderiam ter sido evitados.

Hoje, Daniela administra nove operações e atribui parte importante da evolução de seus negócios ao investimento na qualificação das pessoas, incluindo seu próprio desenvolvimento como gestora.

Outro princípio que orienta sua atuação é acreditar no potencial de crescimento dos profissionais. Ela incentiva os líderes a não desistirem facilmente dos integrantes de suas equipes e a enxergarem o desenvolvimento das pessoas como parte de suas responsabilidades.

O líder também precisa formar quem vai substituí-lo

No Grupo Gérbera_+, Rodrigo Waughan adotou uma prática que ajuda a preparar a organização para o futuro: todos os líderes devem formar pelo menos um sucessor, preferencialmente alguém que já faça parte da operação.

A estratégia busca criar condições para que novas responsabilidades sejam assumidas por profissionais que conhecem a cultura, os processos e a realidade das unidades.

Com 46 operações de marcas como O Boticário, Quem Disse, Berenice?, O.U.i, Eudora e Share 36, o grupo também investe em comunicação interna e desenvolvimento profissional.

Uma das ferramentas utilizadas é o App GG Web, plataforma própria que conecta os colaboradores à organização. Por meio dela, os profissionais acessam informações, interagem com a equipe e recebem conteúdos curtos de aprendizagem.

A iniciativa reforça uma ideia importante para quem administra várias unidades: a cultura e o conhecimento não podem depender apenas das conversas que o dono consegue ter pessoalmente com cada equipe.

É necessário criar mecanismos para que informações, valores e práticas de gestão circulem pela organização, mesmo quando o proprietário não está presente.

Delegar não significa perder o controle

Na avaliação de Fabiana, o multifranqueado precisa atravessar diferentes estágios de desenvolvimento: de dono-operador a gestor, depois a CEO e, finalmente, a desenvolvedor de líderes.

Essa transformação exige mais do que distribuir tarefas. É preciso criar lideranças intermediárias, processos replicáveis, rituais de gestão e clareza sobre a cultura organizacional.

O risco de não fazer essa transição é transformar o próprio dono no limite do crescimento. Quanto mais unidades abre, mais decisões concentra. E quanto mais decisões concentra, menos tempo tem para pensar estrategicamente sobre o negócio.

A delegação, portanto, precisa ser acompanhada de mecanismos que permitam manter a qualidade das operações. O objetivo não é deixar de acompanhar o negócio, mas deixar de ser indispensável para cada decisão cotidiana.

Nesse processo, a confiança também tem papel central. Segundo Fabiana, competência, comprometimento, credibilidade e sinceridade são elementos necessários para construir uma cultura que possa acompanhar a expansão.

Sem confiança, processos podem se transformar em mecanismos de controle excessivo. Com confiança e responsabilidades bem definidas, ajudam a criar autonomia.

Crescer também exige conhecer os próprios limites

A valorização das pessoas foi um ponto de convergência entre os participantes, mas não o único. Os três também destacaram a importância de uma gestão financeira consistente.

Para Rodrigo, a ambição de crescer precisa estar acompanhada de clareza sobre a capacidade real da empresa.

“Querer é importante, mas saber onde você pode chegar é tão relevante quanto.” — Rodrigo Waughan

Isso significa compreender indicadores financeiros, demonstrativos de resultados, balanço e fluxo de caixa antes de assumir novos compromissos.

Fabiana lembrou que a saúde financeira também influencia a capacidade de atrair bons profissionais. Afinal, formar uma equipe de gestão e investir em desenvolvimento exige recursos.

A expansão sustentável depende, assim, de duas capacidades que precisam avançar juntas: ter pessoas preparadas para assumir responsabilidades e recursos financeiros para sustentar o crescimento.

E se outra pessoa assumisse sua operação amanhã?

Para quem reconhece a necessidade de mudar, mas ainda não sabe por onde começar, Daniela propôs um exercício:

Se amanhã você perdesse a liderança da sua unidade para outra pessoa, qual seria a primeira mudança que ela faria?

A pergunta ajuda a identificar decisões que talvez estejam sendo adiadas por hábito, resistência ou apego à maneira como o negócio sempre foi administrado.

Pode ser a necessidade de delegar uma atividade, rever um processo, profissionalizar uma função ou preparar alguém para assumir uma posição de liderança.

Fabiana também destacou que a capacidade de inovar é essencial para evitar que os negócios entrem em declínio. E inovar não significa necessariamente adotar uma nova tecnologia ou abrir mais lojas. Pode significar mudar a maneira de liderar, distribuir responsabilidades e organizar o trabalho.

Para o multifranqueado, essa talvez seja uma das transformações mais importantes: entender que seu papel precisa evoluir à medida que a operação cresce.

Porque chega um momento em que o maior desafio da expansão deixa de ser abrir a próxima unidade. Passa a ser construir uma organização capaz de crescer sem que todas as decisões precisem passar pelo dono.

4 hábitos para adotar agora:

  • Prepare sucessores antes de precisar deles: Peça que cada líder identifique e desenvolva pelo menos um profissional com potencial para assumir sua função. A formação de sucessores deve fazer parte da rotina, não começar apenas quando surge uma vaga.
  • Identifique as decisões que ainda dependem de você: Observe quais assuntos chegam diariamente à sua mesa. Pergunte-se quais poderiam ser resolvidos pela equipe com processos mais claros, indicadores e responsabilidades bem definidas.
  • Avalie se a estrutura está pronta para crescer: Antes de abrir outra unidade, verifique se existem lideranças preparadas, processos replicáveis e capacidade financeira para sustentar a expansão. Crescer sem essa base pode exigir correções custosas no futuro.
  • Questione seus próprios hábitos de gestão: Imagine que outra pessoa assumisse amanhã a liderança da sua operação. O que ela mudaria primeiro? Use a resposta para identificar práticas que precisam ser revistas, mesmo que tenham funcionado bem no passado.

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Autor(a)

Editor CommUnit

Equipe de jornalistas e colaboradores internos da CommUnit

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